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A Psicomotricidade e o Desenvolmento Infantil

O Grupo Eficiente concedeu uma entrevista à Revista Labora com o objetivo de apresentar a Psicomotricidade, mostrando como essa ciência pode auxiliar no desenvolvimento das crianças ou ser utilizada como recurso terapêutico. Nesta entrevista, aborda esse e outros temas, como estímulos favoráveis à maturação psicomotora das crianças.

Labora: Como a psicomotricidade pode acrescentar qualidade ao desenvolvimento da criança?

Grupo Eficiente: O desenvolvimento psicomotor é favorecido por atividades e recursos que proporcionam à criança experiências significativas. A psicomotricidade utiliza instrumentos como jogos e dinâmicas lúdicas, proporcionando maior leveza ao atendimento terapêutico e maior absorção da aprendizagem para a criança. A realização dessas atividades oportuniza a aprendizagem prática de conceitos e melhora habilidades nas atividades diárias, inclusive na coordenação motora, respeitando sempre os interesses e o ritmo de cada criança. Um exemplo, é a alfabetização a partir do corpo, no qual a construção da escrita é estimulada com a criança vivenciando todos os movimentos necessários para a letra cursiva com o corpo, por meio de atividades sensoriomotoras, utilizando diversos materiais como: cortiça, lixa, areia, corda entre outros. Em síntese, a psicomotricidade trabalha de dois modos: preventivamente, acrescentando qualidade ao desenvolvimento infantil e facilitando o aprendizado; ou como recurso terapêutico, fazendo a criança superar eventuais defasagens psicomotoras, valorizando suas habilidades.

Labora: Atividades como natação, dança, futebol ou ainda aulas de música, inglês ou mesmo xadrez contribuem para a maturação psicomotora da criança?

Grupo Eficiente: As crianças precisam ter acesso a atividades que possibilitem a exploração de habilidades e informações significativas. Atividades como a natação, dança, futebol, música e artes marciais proporcionam consciência corporal, sociabilidade, coordenação de movimentos, ritmo e demais vivências. Já o inglês e o xadrez aperfeiçoam o raciocínio. Essas atividades contribuem para a maturação psicomotora, porém são realizadas em grupos, onde cada aluno aproveita como pode, não são personalizadas para a necessidade de cada criança. Caso o professor ou técnico utilize instrumentos como jogos em que a criança participe ativamente, por exemplo, um tabuleiro de xadrez humano, a estimulação psicomotora pode ser significativa, pois a psicomotricidade é construída de dentro para fora, sendo o corpo a principal referência. A estimulação cognitiva também é extremamente importante para o desenvolvimento de habilidades, pois é o entendimento ao realizar uma movimentação que diferencia a realização de movimento intencional (praxia) e treino motor (repetitivo), mas nem todo recurso agregador de qualidade ao desenvolvimento como atividades em que a criança tem aulas teóricas ou reflexivas estimulam o desenvolvimento psicomotor, pois não utiliza instrumentos específicos para atingir esse objetivo.

Enfim, existem diversas possibilidades de atividades que agregam experiências importantes para as crianças e podem ser utilizadas como recursos para seu desenvolvimento desde que se respeite, sempre, seu ritmo e interesse. A diferença entre as atividades complementares e o atendimento psicomotor é o planejamento personalizado. A primeira etapa na estimulação psicomotora é a avaliação de cada criança, sendo que a partir da avaliação e de reuniões com a família e a escola, são traçados os objetivos a serem atingidos para o desenvolvimento de cada criança e conseqüentemente o planejamento personalizado de atividades psicomotoras.

Nas atividades complementares como ballet, artes marciais etc., grande quantidade das aulas acontecem em grupo, sendo cada criança responsável por aproveitar como for possível os exercícios disponíveis.

Labora: Como os pais podem saber se estão passando da medida certa?

Grupo Eficiente: A falta de estimulação é tão prejudicial quanto o excesso, que pode ocasionar dispersão e fadiga.

Algumas atividades são necessárias para o desenvolvimento, como a escola e as referentes ao auto-cuidado como AVDs – Atividades da Vida Diárias (higiene, vestuário, alimentação, organização de materiais pessoais etc.), dessas atividades, a criança pode participar da escolha e da criação de regras como, por exemplo, alimentar-se SEM assistir televisão ao mesmo tempo, escovar os dentes após cada refeição e jogar 30 minutos de vídeo-game depois. Outras atividades, como artes marciais, balé, música etc., são complementares e um bom parâmetro para os pais saberem se devem ou não colocar seus filhos nelas é o próprio interesse da criança.

Labora: Assistir TV, jogar vídeo games. Qual a medida certa para cada faixa etária?

Grupo Eficiente: A TV e o vídeo game favorecem a concentração, pois associam a atenção e os estímulos sensoriais (visuais e auditivos). No entanto, proporcionam poucas experiências que levam a criança a construir um conhecimento significativo, com uso funcional, importante em atividades que a criança realiza no dia-a-dia. Assim, podem ser utilizados como recursos complementares para o lazer, com duração de aproximadamente 30 minutos diários. Na TV, a programação selecionada é tão importante quanto o tempo de uso. No vídeo game, os jogos sem violência são os mais adequados, pois como essa atividade não exige sociabilidade com outros amigos, a criança pode acreditar que a vontade dela sempre prevalece e essa característica, associada ao estímulo violento, pode trazer dificuldades de convivência durante a vida.

Labora: A partir de que idade a concentração das crianças se consolida?

Grupo Eficiente: Concentração é atenção (sobrevivência) associada à percepção sensitiva (visual, auditiva, tátil, proprioceptiva etc.). Portanto, desde o início da vida o bebê tem concentração para viver experiências significativas para o seu desenvolvimento. No processo de alfabetização, por exemplo, a criança vive um momento em que precisa de concentração para duas atividades importantes ao mesmo tempo: assimilar o conteúdo escolar e escrever. Por isso, o ritmo de aprendizagem pode diminuir, mas à medida que a escrita vai se tornando automatizada, a concentração vai sendo focada no conteúdo, então o ritmo de aprendizado aumenta.

Labora: Em sua palestra no CSA, a senhora comentou que muitas vezes são realizados diagnósticos equivocados de hiperatividade por se levar em conta a questão comportamental e não a neurológica. Poderia explicar?

Grupo Eficiente: A hiperatividade não pode ser confundida com falta de limites. O TDAH - Transtornopor déficit de atenção com hiperatividade se produz devido a uma alteração do sistema nervoso central que se caracteriza pela existência de três sintomas: hiperatividade (movimento contínuo e superior ao esperado para a idade da criança), falta de atenção e impulsividade. Atualmente, o TDAH uma das causas mais freqüentes do fracasso escolar e de problemas sociais na infância, mas que se pode diagnosticar e tratar. O diagnóstico deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, normalmente coordenada por um neurologista. A avaliação neurológica é fundamental, mas os relatos da família e da escola são instrumentos importantíssimos, pois relatam o comportamento da criança em diversas situações, inclusive em grupo com outras crianças. Algumas das principais características são: Inquietude (move os pés, mãos e o corpo sem um objetivo claro; levanta-se, salta e corre quando tem que estar sentado); baixa auto-estima, devido sua impopularidade; não consegue brincar de forma tranqüila (não respeita a vez dos outros, excita-se e se aborrece com freqüência); grau acentuado de impulsividade (age antes de pensar, responde antes que terminem a pergunta); falta de concentração (não atende aos detalhes, nem à organização, nem as instruções); falta de persistência (além de não terminar as tarefas, evita as que necessitam de um esforço contínuo); dificuldade para organizar-se e manter a atenção; distrai-se com muita facilidade; esquece-se do que tem que fazer.

Labora: Como a noção de espaço pode contribuir para o aprendizado da noção de tempo?

Grupo Eficiente: Toda noção temporal é adquirida através da noção espacial por meio do “antes e o depois”, “o rápido e o devagar”, “o longe e o perto” etc., mas também na sucessão dos acontecimentos e na duração dos intervalos. Por exemplo, a chegada do aniversário. Se uma semana antes a criança contar quantas noites dorme e quantos dias vive, perceberá que o tempo para a chegada do grande dia é maior do que o tempo para a chegada do jantar ou outra atividade cotidiana.

Labora: Crianças com problemas motores podem ter problemas de aprendizado?

Grupo Eficiente: Sim, mas um não está necessariamente associado ao outro. O desenvolvimento regular é estruturado pela “tríade” que engloba o biológico, o psicoafetivo e o cognitivo, sendo o poder fazer correspondente ao biológico, o querer fazer ao psicoafetivo e o saber fazer ao cognitivo. A defasagem em algum desses aspectos, e não apenas problemas motores, pode gerar dificuldades de aprendizado.

Labora: Que sinais podem indicar ser necessária uma avaliação psicomotora?

Grupo Eficiente: As principais indicações para um atendimento psicomotor são desatenção / pouca concentração em atividades (escolares); postura inadequada; controle inadequado da força (inclusive do lápis sobre o papel); construção inadequada de esquema e imagem corporal (pouco conhecimento do próprio corpo e / ou desenho da figura humana incoerente com o conhecimento do corpo); dominância lateral indefinida (destro / canhoto); noção inadequada de direção (acima, abaixo, frente, atrás, direita, esquerda), de distância (longe, perto) e de tempo (na sucessão dos acontecimentos e na duração dos intervalos, inclusive na escrita); preensão inadequada do lápis; dificuldade para realizar letra cursiva; pouca agilidade na escrita.

By Silvia Baltieri

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